Introdução
Aquele que serve é significado do termo criado para designar os guerreiros nobres do Japão feudal: os samurais. Recebiam esse nome devido à sua filosofia voltada para a total devoção ao seu senhor, seja o SHOGUN ou o DAIMIO, devoção essa que muitas vezes poderia levá-lo a cometer até mesmo o Seppuku, ou suicídio ritual, conhecido no ocidente como Harakiri.
No idioma chinês, samurai era originalmente um verbo que significava escoltar ou acompanhar a pessoa de um elevado nível social, sendo este também o significado do termo original em japonês, saburau. Mas nos dois países tais termos foram realmente utilizados para significar “aquele que serve com uma íntima assistência à nobreza”, alterando a pronúncia do japonês para saburai.
A primeira antologia poética do Império, denominada Kokinshu, completada na primeira parte do século X, faz referência a esta palavra:
Criado para a nobreza
Peça pelo guarda-chuva de seu mestre
Os orvalhos circundantes das árvores de miyagino
São mais finos que a chuva.
(poema 1091)
Intimamente ligado ao seu caráter servil encontra-se seu código de conduta, o BUSHIDO (caminho do guerreiro). Esse código continha toda a orientação de como se portar em qualquer circunstância ou lugar, seja na criação de seus descendentes, passando por rituais religiosos, até no campo de batalha. Com isso o samurai seria reconhecido por sua fama de guerreiro corajoso e invencível, honrado e destemido, bárbaro e determinado.
O samurai caracterizava-se por portar duas espadas atadas ao lado esquerdo de sua cintura, presas ao obi (faixa, cinto). Essas duas espadas seriam a KATANA e a WAKISASHI, que portadas em conjunto eram conhecidas como daisho. O samurai nunca saía sem suas espadas; ele se preocupava em ter cuidado com elas, uma vez que a espada era tida como o espírito do guerreiro e demonstrava a riqueza de sua família.
Enfim, o samurai era um soldado de milícia que lutava pelo seu senhor contra outros feudos, além de fazer cumprir as ordens deste dentro de seu território. Apresentava também uma ética de conduta na batalha onde seus atos eram conduzidos pelo fudoshin (mente e espírito imperturbáveis). Era um guerreiro que prezava acima de tudo sua honra, não medindo esforços para manter essa integridade, que representava algo maior até mesmo que sua vida.
Robert Pascal Gerbauld - Koga Kai Sensei - 1º kyu
Bushido
Código samuraico não escrito que orientava a vida e os atos da classe dos BUSHI (guerreiros), esse código era passado oralmente de pai para filho, o que torna impossível determinar com precisão quando surgiu. O que se sabe é que foi fortalecido no final do período Heian e início do Kamakura, após a dominação da família Minamoto.
No japonês existem vários termos que se aproximam do significado da palavra “guerreiro’, mas o mais usado e provavelmente o mais próximo é o termo “bushi“.
Se dividirmos os caracteres japoneses deste termo em bu e shi, acharemos contidos no significado do primeiro (bu), a idéia de “parar” e uma abreviação de “lança” (ambos presentes no ideograma). Sendo assim bu, algo próximo de: “Dominar a arma para parar a lança” (significado retirado do antigo dicionário chinês Shuo Wen).
Outro primitivo dicionário chinês, o Tso Chuan, vai mais além: “bu consiste em bun (literatura ou letras, e geralmente as artes da paz) parar a lança. Bu proíbe a violência e domina armas... Leva as pessoas à paz, e harmoniza as massas.”
Wilson, William Scott (1982, p.16)
Analisando o radical shi, vemos originariamente entrelaçado em seu conceito a derivação de “alguém que pratica alguma função ou apresenta alguma habilidade no campo”. Chega a ser definido como sendo a “alta classe da sociedade” na antiga história chinesa. No Livro de Han encontra-se esta definição: “O shi, o fazendeiro, o artesão, e o comerciante são as quatro profissões das pessoas. Aquele que ocupa sua posição dedicando-se a aprendizagem é chamado de shi.”
Wilson, William Scott (1982, p.16)
Embora Shi representasse a mais elevada das quatro classes, manejava as armas tão bem quanto os livros. Seriam eles, historicamente, descendentes supérfluos diretos dos nobres – homens bem educados e bem armados que não deviam obediência a ninguém em particular – retirados intencionalmente do campesinato das províncias pelo seu número excessivo, fator este que trazia preocupação à corte, devido às divergências estatais (feudais).
Resumidamente, Bushi aparenta significar: "aquele que tem a habilidade de manter a paz, seja através da literatura ou da milícia, considerando esta última como predominante". Encontramos num livro do período Han a seguinte passagem: “Então, o cavalheiro evita as três extremidades. Ele evita a extremidade da caneta de um homem de letras; ele evita a extremidade da alabarda de um militar; e ele evita a extremidade da língua de um advogado.”
Wilson, William Scott (1982, p.17)
O Bushido era um dos mais importantes aspectos da vida de um samurai, seu maior objetivo era fazer com que o samurai vivesse e nunca sujasse a honra de sua própria família, principalmente no momento de sua morte. Isto pode ser visto em uma máxima samuraica da época que dizia: ”A vida de alguém é limitada, entretanto seu nome e honra podem durar para sempre”.
Também fica explícito no Hagakure, um livro escrito por um sábio que descreve como um samurai deveria agir e pensar, sempre calcado no Bushido: “Descobri que o Caminho do Samurai é a morte. Numa crise em que as possibilidades de vida ou morte são iguais, simplesmente solucione-a escolhendo a morte imediata. Não há nisso nada de complicado. Basta firmar-se e prosseguir. Há quem diga que morrer sem cumprir nossa missão é morrer em vão, mas essa é a ética calculista, imitação da ética samuraica adotada pelos arrogantes comerciantes de Osaka. A escolha certa, numa situação com possibilidades idênticas é quase impossível. Todos nós preferimos viver. Por isso, é perfeitamente natural nessa situação que encontremos uma desculpa para continuar vivendo. Mas quem preferir continuar vivendo depois de ter falhado na sua missão será desprezado como covarde inepto. É essa a parte precária. Se morrermos depois de ter falhado, será uma morte de fanático, morte em vão. Não é, porém, desonrosa. Essa morte é na verdade o Caminho do Samurai. Para ser um samurai perfeito, é necessário preparar-se para morte a cada manhã e cada tarde, todos os dias. Quando o samurai está constantemente preparado para morte, ele domina o Caminho do Samurai, e pode dedicar, sem erros, a vida ao serviço de seu senhor.”
Mishima, Yukio (1987, p.48)
Uma vez que o samurai tenha ferido a sua honra ou cometido um ato indigno, ele deve cometer o seppuku para recuperá-la.
Os nove pontos principais do Bushido são:
• Nunca deixar seu Daisho, pois representa sua alma.
• Nunca abandonar sua coragem.
• Sempre agir com justiça.
• Mentira e falsidade representam fraqueza de caráter.
• Ser sempre cortês.
• Ter polidez em seus atos.
• Bumbu Itchi (a pena e a espada) e as artes em geral (caligrafia, poesia, pintura, música, etc.) têm a mesma importância que as artes militares.
• Ter sempre noção de gratidão, sabendo retribuir o que lhe foi dado e/ou oferecido.
• Ser sempre leal ao seu senhor.
A Influência Religiosa no Bushido:
Budismo – fornece a calma e a confiança no destino, submissão pacífica e inevitável à morte, desapego à vida. É curioso ver que alguns samurais se sentiam culpados por matar, uma vez que era um ato altamente condenado pelo Budismo. Criou-se então a crença de que teriam a eterna condição de guerreiros em suas sucessivas vidas.
Shintoísmo – a lealdade ao soberano, reverencia a memória de seus ancestrais, piedade filial e patriotismo.
Confucionismo – Principal fonte de ensinamentos éticos como, por exemplo, as cinco relações enunciadas por Confúcio: servo/senhor, pai/filho, marido/mulher, irmão mais velho/irmão mais novo e relação com amigos. Tais relações eram seguidas em sua essência.
Zen budismo – Através da meditação o samurai tinha como objetivo ficar em perfeita harmonia com o absoluto. Aprendiam a lidar melhor com as emoções, aceitar a vida e suas reviravoltas com naturalidade. Muitos samurais depois de velhos passaram a se dedicar ao Zen para completar o sentido de suas vidas.
Robert Pascal Gerbauld - Koga Kai Sensei - 1º kyu
Seppuku
O suicida banhava-se purificando seu corpo bem como a sua alma. Ia para o local do ritual, sentava-se em seiza (posição na qual ajoelha-se e senta-se sobre seus calcanhares) com os joelhos bem separados, uma vez que seria uma tremenda grosseria deixar que o corpo pendesse para algum dos lados ou para trás após a sua morte. Em frente a uma mesa, beberia o matsugo no mizu, simbolizando a suprema tranqüilidade, depois escrevia um poema que demonstrava sua paz interior. Pegava a wakizashi, fincava-a do lado esquerdo do abdômen (no ponto conhecido como saika no itten), cortando para a direita e terminando por puxá-la para cima, num corte conhecido como jumonji, não podendo sinalizar dor ou medo para não quebrar a solenidade do ritual. Ao seu lado situava-se o kaishakumi (degolador oficial escolhido pelo samurai) com sua espada para lhe aplicar o golpe de misericórdia, deixando somente um pequeno pedaço de pele segurando a cabeça, pois seria uma imensa falta de respeito caso a cabeça do suicida fosse de encontro aos seus familiares que estariam assistindo. Acreditava-se que este corte para a direita fosse a porta de saída das impurezas do espírito; a saída de suas vísceras simbolizava a exposição da verdade de seu interior.
Após a execução a cabeça era lavada, seus cabelos cuidados, sendo também etiquetada com seu nome e motivo de sua condenação. Esta cabeça seria enviada sobre um leque dentro de uma caixa à família do suicida, que por sua vez examinaria seus olhos para conhecer seu estado de espírito no ato de sua morte: olhando para esquerda sentia-se bem-aventurado; um olho aberto e outro fechado significa que morreu revoltado; ambos fechados demonstrava tranqüilidade; olhando para o alto estaria infeliz, enquanto o olhar voltado para baixo representaria felicidade.
Vale frisar que o seppuku não era tido como algo de caráter agressivo e/ou violento; pelo contrário, ele significava a bravura em se suicidar para mostrar a sua pureza, se redimindo de seu erro em nome de sua honra e do nome de sua família.
Robert Pascal Gerbauld - Koga Kai Sensei - 1º kyu
Kenjutsu
Os estudos sobre a arte da espada, kenjutsu em japonês, tiveram início dentro de templos Shintô. A primeira escola conhecida, denominada Katori Shinto Ryu ou Tenshin Shoden Ryu, foi fundada em um templo Shintô durante a estadia de Izaza Choisai, pois seu cavalo havia bebido água que deveria ser utilizada para a purificação dos seguidores e morreu logo em seguida. Como penitência, Izaza Choisai permaneceu por 1.000 dias no templo e lá fundou sua escola.
O kenjutsu pode ser dividido em dois grupamentos de técnicas, as técnicas de saque de espada (batto jutsu) e as técnicas com a espada já desembainhada.
O batto jutsu foi criado por Hojo Jinsuke, um samurai que, quando pequeno, viu seu pai ser assassinado e sua mãe ser estuprada. Após este episódio refugiou-se em um santuário, onde Hojo Jinsuke aprendeu o kenjutsu com os monges. Após matar o assassino de seu pai, Hojo Jinsuke viu a necessidade de criar técnicas para se defender de ataques inesperados, e daí surgiu o batto jutsu.
No kenjutsu samuraico, cada posição (kamae) permite apenas um corte, o qual é o necessário para ganhar-se uma batalha. Para um samurai, bastam três coisas para se ter um corte perfeito: tenouchi (correta empunhadura), hasuji (perfeito alinhamento da lâmina) e tome (domínio do curso da arma).
Havia duas formas de polir seus cortes: fazê-los em objetos sem vida (suemono giri) ou em pessoas (hito giri). Os corpos utilizados para hito giri geralmente já não possuíam mais vida; porém, havia casos de utilização de pessoas vivas muitas vezes num cumprimento de pena de morte. Todavia, também havia samurais que matavam apenas para testar o fio de sua lâmina, como por exemplo Toyotomi Hidetsugi, irmão mais novo de Toyotomi Hideyoshi (um dos três estadistas mais importantes do Japão feudal), chamado de Taiko Sama (senhor assassino), pois tinha o hábito de mutilar ou até mesmo matar pessoas que encontrasse sem nenhum motivo.
Robert Pascal Gerbauld - Koga Kai Sensei - 1º kyu
Vestimenta
O kimono era a roupa utilizada no dia a dia do samurai. Seu material variava de acordo com a temperatura, e como o kimono era um indicador de status e poder, variava muito também sua qualidade. Apenas os kimonos das crianças possuíam cores vivas, os samurais adultos costumavam usar o azul índigo, marrom ou cinza.
Além do kimono, o samurai também usava uma espécie de tanga, chamada fundoshi. Havia dois tipos de fundoshi: um mais bonito para festivais e outro que era usado sobre a armadura. Era comum usarem tabi como meia. Havia dois tipos de calçados: a sandália (waraji) e um sapato com sola de madeira (geta) que era utilizado pela classe mais baixa. Nos dias chuvosos os samurais usavam capas feitas de palha, chamadas Kappa e guarda-chuvas (kasa).
Durante os períodos Kamakura e Edo os samurais se adequaram ao estilo hitatare de se vestir, que pode ser visto nos filmes ligados ao período Edo: Ran, Kagemusha, Throne of Blood, Heaven and Earth, por exemplo. O Hitatare era adornado com o símbolo da família a qual o samurai servia.
A espada devia ser portada sempre do lado esquerdo, presa à faixa (obi). Ao entrar em lugares fechados, os samurais deveriam deixar suas katanas do lado de fora, levando somente sua wakizashi.
O hitatare foi substituído pelo Kamishima, que era composto por duas peças sobre o kimono. A parte de cima lembrava uma jaqueta com ombros exagerados e era chamada de kataginu, e a parte de baixo chamava-se hakama.
Robert Pascal Gerbauld - Koga Kai Sensei - 1º kyu
Família
A Criança:
Todo samurai tinha como dever cuidar da educação de seus filhos junto com a sua esposa, ensinando a eles desde pequenos os valores básicos da classe samuraica: lealdade, coragem, disciplina e a não temer a morte.
Aos cinco anos, a criança começa a aprender a manejar o arco e flecha (Yumi Ya), praticando em alvos e caçadas bem como começavam a aprender os princípios da equitação.
Quando fazia oito anos, recebia uma bokken para começar o seu treinamento de kenjutsu e começava a aprender a escrita e conhecimentos clássicos sino-japoneses.
Completando dez anos, o jovem samurai passava de quatro a cinco anos recebendo educação intensiva. Estudava tanto caligrafia e matérias gerais como exercício físico e armas, de acordo com a filosofia samuraica, Bumbu itchi, que dizia que “a espada e a pena” tinham o mesmo valor na educação de um samurai. À noite, o tempo era destinado à poesia, música e leitura de crônicas de guerra, o que ajudava a moldar a mente do jovem.
Aos 15 anos o samurai atingia a maioridade e recebia seu Daishô (par de espadas composto por: katana e wakizashi). Passava então por uma cerimônia chamada gempukan e começa a seguir o Bushidô.
A Mulher:
A mulher de um samurai tinha como principais funções cuidar da casa e moldar a mente das crianças, inserindo em suas cabeças os ideais samuraicos e alguns princípios básicos do budismo e do confucionismo. Na ausência do marido, era dever da mulher defender a casa, normalmente utilizando um yumi ya (arco e flecha) ou um naginata (alabarda).
A mulher devia seguir fielmente o seu senhor - no caso, o marido -, e era por ele supervisionada.
Seus cuidados pessoais incluíam manter a pele clara, arrancar as sobrancelhas, vestir-se com luxo (dependendo da renda de seu marido), usar cosméticos (batom e pó de arroz, por exemplo) e as casadas tinham o hábito de pintar seus dentes de preto.






