Técnicas do Ninpo
O auge do ninjutsu, como já visto antes, se deu na época do Japão medieval. Foi neste momento que a arte atingiu seu ápice técnico e os clãs ninja se desenvolveram como entidades fortes e conhecidas.
Nesta fase várias técnicas mostraram-se eficientes no intuito de fazer perseverar o indivíduo, bem como o grupo.
Jutaijutsu, Koshi jutsu, Kamae no Kata, Onshijutsu, ...um vasto leque de técnicas compõe a arte do ninjutsu. Sejam elas de combate, armas, camuflagem ou práticas de controle mental, todas tinham um só objetivo: a perseverança. Perseverança esta que poderia ser física ao superar um inimigo em combate ou ao chegar a um dado objetivo sem ser notado, que poderia ser mental para superar a instabilidade de uma vida de lutas e incertezas, ou ser espiritual para vencermos nós mesmos.
Sempre com o intuito de superar, o ninja passava por um amplo treinamento. As técnicas praticadas, obviamente variavam de ryu para ryu, com cada indivíduo treinando não só aquilo que lhe era básico saber (técnicas específicas do ninja), mas também aquilo que provavelmente o inimigo saberia.
Apesar das variações e abrangência, existia um grupamento de técnicas que todo ninja deveria treinar. Eram dezoito práticas que englobavam desde o combate desarmado, passando pela arte da espada e lâminas de arremesso, até técnicas aparentemente menos específicas como a equitação, camuflagem ou meteorologia.
Os 18 pontos de trabalho, o Ninja Juhachi Mon ou Ninja Juhakei, eram a base de um treinamento amplo. A prática destas técnicas deixava o ninja pronto para perseverar sobre qualquer circunstância.
Ratifica-se que tais pontos não eram os únicos a serem estudados e não compreendem todo o conhecimento típico do ninja. Este seria na verdade complementado pela prática do Bugei Juhappan, formando o Ninpo Sanjurokei. Porém iremos, por enquanto, nos ater aos 18 pontos por serem interessantes, a princípio, para conhecermos a abrangência da arte ninja. Segue a baixo o Ninja Juhakei.
Os 18 Pontos de Estudo
| Seishin Teki Kyo | Shinobi Iri | |
| Ninpo Taijutsu | Inton Jutsu | |
| Bo Ryaku | Henso Jutsu | |
| Ninja Ken | Cho Ho | |
Bo Jutsu |
Ba Jutsu | |
So Jutsu | Kayaku Jutsu | |
| Shuriken Jutsu | Sui Ren | |
Naginata Jutsu | Chi Mon | |
| Kusari Gama | Ten Mon |
André Renovato – Koga Kai Shidoshi
O TAO e o In/Yang
Um dos aspectos da cultura e crença oriental mais divulgados no ocidente atualmente é o conceito de In & Yo, mais comumente chamado pela forma tradicional chinesa de Yin & Yang. Podemos notar que o ocidente capturou para si este conceito de opostos colocando-o em quase tudo visível desde adesivos a decoração da casa como quadros e velas. Ciente do conceito de equilíbrio relacionado a estes dois opostos, tenta-se então reduzir ao Maximo a influência do Yin/In e trazer o Yang/ Yo para a atividade tentando fortificar um com a ausência do outro. Porém será que o ocidente entendeu realmente o significado e a real mecânica destes opostos?
A origem deste conceito de In & Yo remonta da China antiga a partir de um de seus mais famosos nomes, Lao Tse, e de algumas de suas mais antigas obras como o TAO TE KING e o I-CHING ou Livro das Mutações. Desde os primórdios, o I- CHING descreve o universo como sendo aquilo que é; o chamado Tao(do chinês), Do(do japonês), o caminho.
De acordo com esta tradição, tudo no universo provém do Tao, sendo este importante instrumento de estudo da já conhecida religião denominada Taoísmo. Segundo as escrituras, tudo no universo começou com o Tao. Este Tão era algo que não se podia definir, conhecer ou caracterizar de acordo com a visão humana e que por um motivo qualquer (talvez pela necessidade da unidade em se diversificar) ele passou a vibrar se diferenciando até formar o In & Yo.
A partir daí, estas duas forças se diversificaram ainda mais. O In se tornou mais pesado e físico passando a descender dando origem a terra, ao frio, a água, ao escuro..., já o Yo se tornou mais leve e etéreo, ascendendo e dando origem ao céu, ao sol, ao calor e etc. Portanto, entende-se que estas duas forças evoluiram e se combinaram em processos para dar origem a tudo no universo.
Podemos literalmente traduzir Tao Te Ching como “o livro de como o universo funciona”. Neste livro, Lao Tse procura por meio de alguns pensamentos expressar sabedoria sobre como as coisas são e que o conhecimento do universo é a chave para viveremos melhor.
Para nós, estudantes de Ninpo, é essencial o estudo e compreensão do Tao, bem como dos opostos do In/Yo. Assim podemos seguir de acordo com o Tao e, se realmente o entendermos, poderemos usufruir melhor da vida e de nossos universos interior e exterior. Por outro lado, ir contra ele é um grande desperdício de energia; pois tal atitude consiste em ir contra aquilo que é!

Figura chinesa representando os canais de energia do corpo humano. Tal energia, como o universo exterior se que o TAO e o "equilíbrio" entre IN & YO.
Porém há uma palavra muito usada pelo ocidental (e propositalmente por mim neste texto) a qual devemos ter atenção: "opostos". E está aí uma pergunta a qual o estudante de Nimpo deve muito considerar! Seria, dentro da doutrina antiga do In & Yo, "opostos" a palavra mais adequada ao nos referirmos a estas forças e sua influencia sobre os fenômenos de nosso mundo?
Os ideogramas em japonês que se referem ao In/Yo nos chamam a atenção para uma outra analogia que descreve estas duas forças.
O ideograma In remonta ao lado escuro, sobre a sombra de uma montanha, enquanto o Yo ao lado iluminado da montanha. A partir disto, o sol, a claridade e o calor do lado iluminado estão relacionados aos processos Yo, enquanto o frio, a sombra, o escuro e a lua se relacionam aos processos In.
Porém devemos, então, notar que apesar de oposto, In/Yo estão representando processos existentes na mesma montanha. Afinal não há montanha constante e completamente sob a sombra ou iluminada pelo sol. Ambos os processos existem na mesma montanha, perdurando e mutando ao longo da existência sendo mais que opostos, e por isso, complementares. Complementares e essenciais para a existência da montanha.
Ou seja, In/Yo são opostos complementares dos quais o fato real não significa que um existe na falta do outro, mas sim que um não existe sem o outro. O Yin sempre fará parte do Yang e o Yang sempre fará parte do Yin, e isto é bem demonstrado na própria representação antiga do Tao. Afinal, existiria o frio sem o calor? Existiria o alto sem o baixo? E ainda. não poderia, sim, o baixo ser alto caso houvesse alguém ainda mais baixo? Não pode o claro ser escuro caso exista a sua volta algo ainda bem mais claro? Teria o homem inventado tão facilmente o avião sem a existência das aves?
Muitos dos processos em nosso universo dependem da perspectiva que envolve estes conceitos e às vezes nos é difícil compreender todo o processo, pois apenas percebemos partes deste.
Mutação é também outra palavra chave! Guarda o sentido de mudar, transformar. A mutação faz parte do universo e é de suma importância para o equilíbrio deste, mesmo que às vezes o ser humano tenha medo destas mudanças.
O conceito de In/Yo também nos mostra a mutação como algo primordial, sendo estas duas forças complementares, porém, de forma nenhuma estática ou imutável. Até porque, destas transformações entre In e Yo, depende o equilíbrio e sucesso do universo. Sempre em In há algo de Yo para que nele possa este mudar, não sendo nem um nem outro completo, único ou permanente!
O dia (yang no yang) vira noite e a noite (yin) vira dia! Sendo, porém, este processo gradual e não instantâneo; evidencia - se a mutação do dia para a noite por meio da tarde (Yin no Yang) e entardecer e a recíproca ocorre por meio madrugada e alvorada (yang no yin). Afinal um processo brusco faria bem ao universo?
Quando o estudante de Ninpo tenta entender este conceito de caminho em sua forma mais ampla, ele passa a dar seus primeiros passos em Mikkyo e a ver como realmente funciona aquilo que é! Daí sua visão e compreensão ficam mais claras, passando a interagir melhor com o mundo e buscando atingir seus objetivos, seus caminhos e sua perseverança por meio desta interação! Porém antes ele deve entender que não só as trevas são falta da luz. Há sim luz nas trevas e das trevas faz – se a luz!
André Renovato – Koga Kai Shidoshi
Hierarquia e superioridade estão intimamente ligadas? Vejo através da sociedade em geral, não só da ocidental, mas também da oriental, que tanto os superiores em capacidade ou em hierarquia tendem a confundir e inter relacionar estes dois fatores de forma exagerada.
Digamos que a superioridade seja ela intelectual, física ou de qualquer outra forma, determine o caminho para que um dado indivíduo atinja uma posição de alto escala em uma hierarquia. Dado este em seu posto, mostra-se então mais capaz de manter seu lugar do que alguém com menor “superioridade” (capacidade). Neste caso superioridade está ligada ao conhecimento.
Tal superioridade (capacidade) dá ao indivíduo a possibilidade de ocupar o referido lugar na hierarquia justo ao seu conhecimento; conhecimento este que pode ser adquirido de qualquer forma seja por uma “superioridade nata”, ou por uma capacidade adquirida por meio de estudo, treino, prática ou tempo. E nada mais justo que o individuo mais capaz (superior) ocupe um lugar mais alto na Hierarquia. Nada de mal nisto há.
O problema é quando o indivíduo em lugar mais alto na hierarquia esquece que sua “superioridade” nada mais é (ou foi) do que o meio pelo qual ele chegou em seu devido lugar. E dado este erro letal, não só a “superioridade” do indivíduo, bem como toda a hierarquia na qual este ocupa um alto posto, perderá o sentido e a função.
Para entendermos onde se tenta chegar por estas linhas temos que buscar compreender o real sentido de Hierarquia. Hierarquia tem sua origem do grego: hieros , sagrado ou divino e arche , organização ou governo. Tal palavra foi primordialmente utilizada na estrutura da igreja católica durante a idade média e portanto, acaba por nos passar algo ligado a níveis de poder, mais do que a real idéia por trás do verbete. O antônimo mais interessante de hierarquia dado pelos dicionários é: confusão.
Seria, então, a hierarquia uma simples estrutura com um chefão ou chefões que usam de sua posição para serem diretos, curtos e grossos, seguindo a premissa do “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”?
A hierarquia não pode existir pelo simples fato de existirem chefes e subordinados até porque um subordinado que não reconhece ou respeita seu chefe será sempre um mal subordinado com um péssimo chefe. A hierarquia tem uma função muito mais importante do que gerar chefes e subordinados.
A hierarquia tem a função, em estruturas amplas, de organizar e evitar confusão. Ela deve ser análoga ao funcionamento de um organismo vivo, um polvo. A cabeça, mesmo como centro, é auxiliada pelos braços que se ramificam em várias direções, aumentando a força de trabalho da cabeça. A cabeça há de mandar o comando para que os braços ataquem um peixe e levem – no abatido até a boca...e apesar da ordem ter vindo da cabeça, com os braços somente a executando sem questionar; o mesmo peixe há de alimentar tanto a cabeça quanto os braços! Além, braços sem cabeça são inertes e indefesos, cabeça sem braços é mente pensante sem “ação”.
Hierarquia é uma forma de divisão de trabalhos ou funções. Cada peça do quebra cabeça, cada posição ocupante, tem sua função. Cada função com seus prós, contras e méritos...A função do soldado é pegar o peixe sem discutir e do general é enviar o sinal, pois a cabeça do polvo possui sinapses e esta sabe que, caso o corpo não se alimente, cairão mortos cabeça e braços.
Na hierarquia é importante que cada qual assuma sua função, e o melhor a assumir uma dada função é aquele que possui a maior superioridade (capacidade) para fazê-la. O erro letal ocorrer quando o superior passa só a se preocupar com sua superioridade perante aos outros e esquece de sua função. A partir daí a hierarquia perde o sentido, perde a razão de ser. E ela também há de perder o sentido caso o soldado também esqueça de sua função e passe a se preocupar somente com sua inferioridade (que, no caso, não é falta de capacidade).
André Renovato - Koga Kai Shidoshi
O Ninjutsu é o termo que denomina a arte ninja japonesa ligada aos famosos e misteriosos ninjas, guerreiros do japão antigo. O que há porém além de lendas e mistério por trás desse tão conturbados homens, que realmente nada mais eram do que...homens? O que existe de real no ninjutsu por trás de suas famosas e as vezes difamadas lendas e histórias contadas nos filmes de Holywood?
Temos de dizer que o ninjutsu é uma arte muito antiga, cuja origem se perde em milhares de anos na historia japonesa. Diferente das artes marciais clássicas como o Judô, Karate ou Aikido, não há um indivíduo em específico em um ano específico que tenha determinado o surgimento da arte ninja ou Ninjutsu. Não existem documentos ou registros claros que descrevam o surgimento exato dessa arte tão conturbada.
No japão antigo havia surpertições que diziam que os ninjas eram descendentes de Tengus. Os Tengus eram demônios alados, meio homens e meio pássaros, que segundo a crença local habitavam os bosques e florestas e que durante a noite erravam pelos campos sendo capazes de atos fantásticos que quebrassem as leis da natureza. Obviamente tais contos não são fato, fazendo parte apenas do misticismo e crença da época.
A origem real do ninjutsu esta ligada à união de elementos da história chinesa e japonesa. Um desses fatores esta ligado aos Yamabushi e Sennin que eram eremitas das montanhas de Iga e Koga na ilha de Honshu. Estes monges tinham uma cultura Taoísta e militar proveniente da China. Muitos homens como Samurais ou Ronins iam encontrar-se com esses Senins e com eles aprendiam novas formas de lidar com a natureza e de estratégia militar. Esse homens são considerados os formadores das primeiras famílias ninja . Outro fator importante foram os nobres estrategistas militares chineses que depois da crise da dinastia Táng se refugiam no Japão. Com eles vieram seus conhecimentos militares e suas escolas de técnicas de combate.
Apartir desses e de vários outros fatores o ninjutsu cresceu com seu berço no centro sul da ilha de Honshu. O período histórico do japão onde o ninjutsu atingiu seu auge foi no fim do período Kamakura onde a família Minamoto assumiu o poder e determinou o sistema político marcado pelos Daimios (senhores feudais) e um sistema militar onde os samurais eram guerreiros nobres de milícia. Nesta época os Daimios se concentravam mais em combates entre si para obter mais poder militar e político, deixando obviamente a população em geral de lado, o que gerava miséria, fome e doença. Tal situação molestava aos camponeses e aos monges budistas que acreditavam que o correto era um governo baseado em trabalho para o povo e não em guerras por poder. Os camponeses passavam a se unir com esse monges tornando ainda maiores as famílias ninjas. Tais famílias ganharam força e tradição principalmente nas regiões de Iga e Koga, regiões montanhosas no centro-sul da ilha de Honshu.
Neste período os ninjas eram muito recrutados por Daimios para assassinar seu Lordes inimigos, eram também os guardiões dos templos Budistas e forte influência local sobre as regiões de Iga e Koga. Porém eram também muito perseguidos principalmente durante o shogunato de Oda Nobunaga que detestava o misticismo dos ninjas e os via como uma barreira para seus ideiais políticos.
Nobunaga era um ótimo estrategista e costumava atingir seus objetivos através da força. Uma forma de enfraquecer a influência religiosa e ideológica dos ninjas foi condenar a religião budista e encorajar a religião cristã no Japão.
Em 1581, Oda Nobunaga liderou um ataque militar massivo a província de Iga onde os clãs ninjas foram arrasados por um exército que contava de 10 samurais para cada ninja incluindo as mulheres e crianças das aldeias. Alguns sobreviveram e passaram a se esconder mais fundo ainda na floresta.
Apesar da perseguição e destruição esse período teve um ponto positivo, pois por necessidade de manterem-se vivos os ninja experimentaram um desenvolvimento e crescimento técnico enorme de suas práticas e culturas.
Algum tempo depois outro estrategista chamado Ieyasu Tokugawa chegou ao poder no Japão. Tokugawa diferente de Nobunaga passou a encarar os ninjas como peças interessantes e importantes para atingir seus interesses. Ao invés de usar da força para eliminá-los, Tokugawa passou a trazê-los para trabalhar consigo. Neste período, os ninjas deixaram de ser perseguidos e passaram a experimentar de maior paz. Trabalhando para o então shogun Tokugawa, os ninjas chegaram a alcançar altos postos de hierarquia militar, como o ocorrido com Hanzo Hattori de Iga Ryu, feito que antes era exclusivo das famílias samuraicas.
Principalmente no período feudal, as famílias ninjas cresceram muito ganhando respeito e influência nas já mencionadas regiões de Iga e Koga. Dentre os clãs da época os que mais cresceram e ganharam influência foram a Koga Ryu e a Iga Ryu. Porém haviam também outros clãs menores que operavam nessas regiões como a Togakure ryu, a Koto ryu , a Gyokko ryu e várias outras dentro da província de Iga. Já dentro da província de Koga além da Koga Ryu encontravam-se também clãs como a Taira ryu, a Sugawara ryu e várias outras.
Cada clã ou família possuía suas características e segredos. A Koga ryu, estudada e disseminada pela Koga-kai: Associação Brasileira de Ninjutsu, possui uma técnica de Taijutsu (combate desarmado) de movimentos rápidos, breves e objetivos, as movimentações circulares são deixadas de lado por se tornarem lentas e desnecessárias sendo substituídas por ataques mais curtos. Além disso a Koga ryu é uma escola muito especializada em armas e com fundos xintoístas e budistas.
A palavra Ninjutsu, diferente do que muitos que se dizem mestres afirmam, não quer dizer arte da morte, arte negra, ou arte oculta. O carácter NIN , tem um significado mais de resistência ou perseverança, sendo JUTSU , arte ou técnicas. O ninja é literalmente, aquele que persevera, que resiste, que treina para evoluir e superar os obstáculos que podem lhe levar à morte ou trabalhar-lhe a vida, já que esta é por natureza uma série de obstáculos que devem ser superados para nos tornarmos melhores pessoas. A palavra shinobi, também nada tem a ver com guerreiro negro ou homem das sombras, sendo nada além do que uma outra leitura para os caracteres da palavra NINJA . No título me refiro a ninjutsu como a arte oculta, não por ser a arte negra ou arte das sobras como afirmam alguns, mas pelo fatos de suas origens e tradições estarem “ocultas” na malha dos anos e do tempo.
André Renovato – Koga Kai Shidoshi
Os ninjas sempre foram homens famosos por seus muitos mistérios, lendas, mitos. Alguns diziam que os ninjas eram capazes de ações fantásticas, sendo possível para eles “desaparecer” em segundos (tornando-se “invisíveis”) e reaparecer momentos depois em outro lugar como em um passe de mágica.
A verdade é que os ninjas eram homens comuns, nada além disso, não possuindo nenhum poder mágico ou para-normal, o que os diferenciava dos demais era a sua profunda dedicação ao treinamento, visando com isso o aperfeiçoamento de suas técnicas, as quais foram desenvolvidas com uma única finalidade, a sobrevivência.
Técnicas de camuflagem e disfarces, respectivamente Inton Jutsu e Henso Jutsu, foram estudadas e aprimoradas ao máximo, permitindo ao ninja se infiltrar em fortalezas bem protegidas, surpreender seus inimigos em emboscadas fatais, obter informações secretas, entre outras ações vitais para a sobrevivência do clã.
Henso Jutsu:
É o estudo dos métodos e técnicas de disfarces. Era essa arte que possibilitava ao genin (ninja apto para missões) se infiltrar em qualquer fortaleza ou grupo sem a necessidade de nenhuma outra técnica de camuflagem ou furtiva, agindo “normalmente” ou ao menos aparentando.
Esse estudo se fazia de maneira intensa e completa, pois o ninja buscava não somente assumir a forma daquele no qual se disfarçava, mas também seus hábitos, suas habilidades, sua maneira de falar, andar e comportar, interpretando o personagem por completo, já que um disfarce puramente físico seria totalmente ineficaz e facilmente descoberto.
Quanto às armas, essas podiam variar de acordo com o disfarce escolhido. A kama (foice) e o bo (bastão longo) por exemplo, jamais despertariam suspeitas se estivesse disfarçado de agricultor.
Tendo domínio desta arte o ninja era capaz de freqüentar quaisquer lugares, conversar com quaisquer pessoas sem jamais revelar a sua identidade, mantendo a integridade do seu clã e garantindo o sucesso de sua missão.
"Shichi ho de" ou as sete formas de andar:
(os sete disfarces básicos)

Komuso "monge errante"
Shukke "pessoa interessada em estudar religião"

Yamabushi "asceta da montanha"
Shonin "mecador ou vendedor ambulante"

Hokashi "palhaço ou malabarista viajante"

Sarugakushi "bailarino viajante"

Tsuneno Kata "cidadão local"
Esses eram os sete disfarces básicos baseados em sete profissões ou ocupações, as quais eram meticulosamente estudas e trabalhadas, visando uma atuação perfeita. E como eram profissões ou ocupações relativamente comuns no Japão feudal eram bem aceitas pela sociedade de um modo geral, “facilitando” o trabalho do ninja.
Disfarces femininos:
Além destes sete disfarces anteriormente citados, também eram utilizados disfarces femininos como meio de espionagem. A mulher não representava perigo algum no Japão antigo, podendo se aproximar de qualquer pessoa por mais importante que ela fosse com uma facilidade maior do que a maioria dos disfarces masculinos que o ninja era capaz de assumir. Porém com o passar do tempo as kunoichis (mulheres ninja) foram tornando-se cada vez mais presentes nos clãs e esse disfarce foi perdendo seu sentido, uma vez que obviamente elas eram capazes de desempenhar este papel com maior perfeição e ainda utilizando seu poder de sedução (kisha).
As kunoichi eram conhecidas por serem um tipo de espiã capaz de utilizar qualquer disfarce para realizar suas missões. Geralmente disfarçavam-se de gueixas para descobrir segredos e até mesmo matar os xoguns e senhores feudais. Já na infância, as futuras kunoichis eram treinadas para a realização de missões nas quais utilizariam muitos disfarces, e com isso recebiam além do treinamento igual ao dos homens, ensinamentos que eram passados para as gueixas como, por exemplo: o conhecimento sobre política, cultura japonesa, massagens, história, etiqueta, música, arte, etc. Quando tomavam conhecimento de uma missão, uma longa e detalhada preparação era feita através da observação, do estudo e da pesquisa sobre o meio físico, social e psicológico do inimigo. Essa preparação inicial era muito importante para que se escolhesse a técnica correta de disfarce e sedução a ser utilizada. Dessa forma, a kunoichi conseguia entrar nos castelos sem levantar suspeitas, completando sua missão mesmo que para isso fosse necessário ter relações sexuais, pois isso também fazia parte do disfarce.
Além de gueixas, as mulheres também se disfarçavam de professoras, senhoras idosas, camponesas, e infinitos outros disfarces que fossem necessários para sua missão, apresentando-se forte tanto emocionalmente, como psicologicamente. Assim se mantinham o mais afastadas possível de quaisquer envolvimento sentimental com a vítima. Dizem que uma kunoichi viveu em um clã inimigo por mais de quinze anos após ter seduzido e casado com um ninja de um clã rival, obtendo durante todo esse tempo importantes informações sobre este clã.
Inton Jutsu:
É o estudo das técnicas e métodos de camuflagem, fazendo-se confundir com os elementos do meio. Desenvolvido com o passar dos anos de vivência na natureza, este método se tornou um dos poderosos conhecimentos do ninjutsu, pois tornava o usuário desta técnica “invisível” aos olhos desatentos. O ninja que dominava essa arte tinha uma vantagem incontestável em batalhas e no campo da espionagem (Cho-ho).
O estudo do Inton-Jutsu, era complementado e associado a diversas outras técnicas como:
Ao se camuflar o ninja utilizava todos os recursos disponíveis a sua volta como:
O Uniforme Ninja:
O uniforme ninja, tradicionalmente preto, não se deve ao caráter ou personalidade de quem o usa. Ao contrário do que muitos pensam e dizem, os ninjas “bons” não usam uniformes brancos e os ninjas “maus” os pretos. É valido lembrar que a associação feita entre as cores escuras (preto) com supostas forças malignas e as cores claras (branco) com as forças divinas é feita somente por nós ocidentais, já que em outras partes do mundo essa mesma cor está possui diversas outras interpretações como a paz no na cultura Árabe e a simplicidade no Japão.
A cor do uniforme de um ninja depende única e exclusivamente de sua necessidade. Como era comum a atividade noturna aos ninjas, a cor preta era a que melhor se adequava a esta realidade e por isso era muito usada. Assim sendo, uniformes brancos, camuflados e de outros tons (podendo variar do marrom ao vermelho) eram usados de acordo com o que o ninja julgasse útil no momento, por exemplo, em situações de nevasca ou em florestas.
Apesar de usarem um capuz que cobria todo o rosto, apenas uma faixa na altura dos olhos ficava exposta, para tornar a sua camuflagem ainda mais perfeita os ninjas a cobriam com uma fuligem misturada a um pó fino de carvão.
Júlio Arruda – Koga Kai Senpai - 3º Kyu
Ricardo Espósito – Koga Kai Senpai - 4º Kyu
Ilustrações por Amanda Newlands – Koga Kai Senpai - 3º Kyu
Bo significa bastão, madeira; Jutsu significa arte. Bojutsu é a arte de utilizar os bastões para o combate.
Por ser uma arma primordial, a história do bojutsu de forma geral começa junto com a história da humanidade, a partir do momento em que um homem pegou um galho, ou um pedaço de madeira qualquer e usou-o para se defender ou para atacar, pela primeira vez. Por esse motivo, o bastão é uma arma que existe na grande maioria das artes marciais que usam armas. Variando de tamanho, peso, e técnica de acordo com cada arte e com cada região.
Em relação às práticas ninjas podemos citar a utilização de quatro tipos de bastões: O Bo, o Jo, o Hanbo e o Tanbo. Jo é o nome específico de um bastão roliço, de mais ou menos 1,30 m. de altura e de 2,5 a 3 centímetros de diâmetro.
Diz a lenda que o Jojutsu (arte do jo) surgiu quando um guerreiro chamado Muso Gonnosuke foi derrotado pelo famoso espadachim Miyamoto Musashi, e passou anos treinando estudando e meditando uma forma de derrotá-lo. Após algum tempo, Gonnosuke foi presenteado pelos deuses com a resposta. Eis que surge o jo e conseqüentemente o Jojutsu.
O Jojustu se tornou uma arma clássica e todo Samurai sabia manejá-lo com destreza. Por esse motivo, o ninja também desenvolveu bastante a arte do jo, pois ele tinha que saber se defender e conseqüentemente atacar portando essa arma.
Dentro do jojustu ninja pode-se dizer que os pontos mais trabalhados eram o Jo-tori e do Jo-wasa. O jo além de proporcionar uma distância de combate média, não era nem muito leve nem muito pesado, o que gerava a possibilidade de golpear pontos específicos com certa precisão e impacto.
Bo, que como já foi dito, é um kanji utilizado para designar bastões ou pedaços de madeira em geral, é também usado para definir um tipo de bastão específico dos ninjas.
O bo ninja é um bastão roliço de mais ou menos 2 metros de comprimento e de 3,5 a 4,5 centímetros de diâmetro, que adveio de um utensílio que os pescadores utilizavam para empurrar o barco.
André Renovato – Koga Kai Shidoshi
As técnicas de combate com o Bo foram sendo desenvolvidas ao longo dos anos. Ele, por ser grande e pesado proporcionava um maai considerável aliado a um forte impacto, que era muito útil para o koppo-jutsu. Ataques a crânio, quadril ou tórax eram as lesões mais comum das vítimas desta arma, que também poderia ser utilizada para golpear um inimigo de armadura. Porém, não era uma arma rápida, suas técnicas eram mais brutas do que o costume e eram caracterizadas por uma movimentação objetiva, não era interessante se gastar muita energia já que a carga da arma iria exigir um certo esforço físico.
Hanbo, o kanji han significa metade. Logo hanbo é a metade de um bo. O Hanbo é um bastão de mais ou menos 1 metro de comprimento e de 2,5 a 3 centímetros de diâmetro. O Hanbo surgiu como uma boa alternativa para combates de curta distância, era fácil de ser encontrado e poderia até se passar por uma bengala, por exemplo.
As técnicas de combate com o hanbo promovem uma pequena distância de combate e, devido ao seu peso e tamanho, as técnicas são muito soltas e ágeis além de calcarem na movimentação igualmente rápida. Pela força do impacto reduzida se ganha no quesito precisão. O hanbo era muito usado para golpear pontos específicos e para fazer chaves e torções. É uma arma que pode surpreender, pois, seu manejo se baseia no controle de maai de forma a atingir o oponente quando este não acredita poder ser atingido, ou visando imobilizá-lo quando em curtas distâncias, por meio de técnicas de Jutaijutsu.
Tanbo, o kanji tan significa curto ou simples. Tanbo é um pequeno bastão de mais ou menos 30 centímetros de comprimento, que é usado em pares e é específico de Koga Ryu. Ele era originalmente usado pelos camponeses para moer grãos.
Devido ao seu tamanho e peso muito reduzidos, a técnica correta para ataque é importante, pois só por meio dela podemos dar amplitude e força ao movimento. A movimentação era livre, bem solta e veloz; e, como era um bastão que proporcionava muita precisão e controle do golpe, era mais utilizado para golpear pontos específicos principalmente koppo e koshi.
So jutsu é como denominamos o conjunto de técnicas que envolve a lança japonesa, chamada yari.
Origem
A origem dessa arma é bem primitiva. Desde os primórdios da humanidade, a lança já era usada como instrumento de caça, pesca e defesa pessoal. Era bem simples, porém sua forma foi sendo aperfeiçoada ao longo dos tempos, bem como sua maneira de utilização que se desenvolveu de formas diferentes em várias regiões do mundo. No Japão, uma provável origem do desenvolvimento dessas técnicas foi após a invasão mongol em 1274 e 1281 durante o período Kamakura. Chineses e coreanos que lutaram a serviço dos mongóis portavam lanças e as usavam contra guerreiros montados. Observando a eficiência da arma os japoneses buscaram conhecer melhor suas técnicas. A yari foi uma das principais armas usadas em batalhas no Japão. Os samurais portavam as mais curtas a cavalo e os ashigaru, soldados de frente comum, portavam as mais longas a pé.
Aspectos Formais
A yari é a união entre um bastão e um utensílio de corte. Normalmente seu comprimento total ia de 1.80m a 2.00m, mas podia chegar até 2.80m. A lâmina media em torno de 90cm. Essas são medidas médias, podendo variar de escola para escola. Omi no yari é como eram chamadas as lanças longas e mochi ou te yari eram as mais curtas. Algumas possuíam uma bainha chamada saya.
Outra característica comum em algumas lanças era uma ponta metálica na outra extremidade chamada ishizuki. Por ser mais rígido e pesado servia para golpear além de equilibrar o peso da yari.

Tipos de Ishizuki
Determinadas lanças possuíam adornos. Geralmente esse era o caso de uma yari samuraica que muitas vezes era decorada com materiais semipreciosos. Os ninjas, entretanto, optavam por tipos muito mais simples, pois estavam mais preocupados com a sua utilidade do que com a sua estética.
Alguns Tipos de Yari
Abaixo estão representados alguns dos inúmeros tipos e formas de yari. A mesma forma pode estar inserida em mais de uma categoria dependendo de suas características. Uma kama yari, por exemplo, pode também ser um tipo de jumonji yari desde que tenha simetria no tamanho de seus ganchos.
Su yari
Yari cuja lâmina é um prolongamento do bastão, sem protuberâncias. Boa tanto para cortar quanto para estocar.
Kikuchi yari
Yari cuja lâmina era afiada apenas em um lado. Assemelha-se à naginata, não só pelo formato, mas também pelas propriedades de corte.
Jumonji yari
Yari com três lâminas, duas laterais simétricas que cruzavam uma reta na transversal.
Kama yari
Yari com lâminas em forma de gancho, que eram mais difíceis de forjar e afiar. Além da função de estocar e perfurar com a lâmina reta, seu gancho podia ser usado para prender nas roupas ou membros e até desarmar o oponente. Seu nome vem da kama, uma espécie de foice pequena e curta.
Katakama yari
Yari com uma lâmina reta e uma única lâmina lateral. Poderia ter também uma pequena protuberância do outro lado.
Kagi yari
Yari com lâmina em forma de um único gancho.
Aspectos Funcionais
A yari foi criada sobretudo para estocar e perfurar, sua característica principal não é o arremesso, como muitos pensam. Uma de suas grandes vantagens é o ma ai (distância) longo. Mas se por alguma razão a distância entre o guerreiro e seu oponente diminuísse, este guerreiro estaria em desvantagem.
Essa arma é bastante associada ao ba jutsu (equitação). Inicialmente era muito usada a cavalo, já que por ser uma arma longa era mais fácil combater tanto um guerreiro a pé quanto um montado. Entretanto, os movimentos eram limitados e o ma ai ficava mais curto pelo fato de se estar montado. A partir daí a yari começou a ser usada também a pé, assim o guerreiro tinha uma frente livre e maior liberdade na movimentação. A distância passa a ser vantagem e não uma necessidade como antes era a cavalo.
O So Jutsu e o Ninjutsu
O So Jutsu é um dos 18 pontos estudados no ninjutsu. A yari não é uma arma típica ninja mas era muito importante de ser estudada, não só pela sua versatilidade e eficácia, mas também porque os samurais eram muito bem treinados nessa arma, então os ninjas deveriam saber lidar com ela. Alguns tipos de yari eram bastante úteis para o ninja. A kama yari, que possui ganchos, era muito vantajosa durante missões, pois servia como ferramenta de escalada podendo se prender em árvores, muros dos castelos ou na lateral de embarcações.
Técnicas
As técnicas de so jutsu costumam envolver estocada já que perfurar era uma das principais funções da yari. Outro ponto estudado nessas técnicas é o bloqueio, mais uma vantagem que seu tamanho proporciona.
Shidoshi André Renovato demonstra, juntamente com Sensei Robert Gerbauld, técnica de So jutsu contra oponente armado de espada em apresentação ao público no CCBB pelas comemorações do Centenário da Imigração Japonesa para o Brasil.
Por ser uma mistura de bastão com arma de corte, a yari possui propriedades dessas duas armas. Assim como no bastão, existem formas de alavancas, chaves, estrangulamento usando-se a yari. Muitas das técnicas eram estudadas de forma bem ampla e podiam se aplicar aos diversos formatos de yari. Mas alguns tipos mais específicos tinham técnicas próprias, como é o caso da jumonji yari que possui formas de desarmar e derrubar o oponente usando-se as lâminas laterais.
Existiram inúmeros tipos de lanças usados através das mais variadas técnicas. Mas o mais importante sempre foi trabalhar a essência do ninpo taijutsu em cada uma delas para garantir a sobrevivência do ninja.
Amanda Newlands – Koga Kai Senpay - 3° kyu
Conhecemos bem os guerreiros ninjas do cinema. Sempre associados à luta do bem contra o mal, vestidos de preto, voando e desaparecendo em meio a fumaça dos filmes; esse guerreiro japonês desperta a imaginação de muitos. Isso, porém, de longe tem a ver com a realidade de quem pratica Ninjutsu, a técnica milenar japonesa. Na verdade, foi criado como forma de defesa pessoal que consiste no equilíbrio do homem com a natureza, no aperfeiçoamento do ser humano, na autosuperação, e na busca da iluminação espiritual. E espera-se por meio deste clarificar um pouco melhor, à sombra dos filmes e desenhos da TV, o que é o Ninjutsu; um termo japonês cuja tradução literal para o português é: “A arte da perseverança”.
Seu início se deu em meados do século X no Japão, sem nenhum criador específico, como resultado da necessidade de certos indivíduos em buscar uma forma de viver distinta em meio a um Japão já conturbado sócio e politicamente. Monges, guerreiros e militares imigrando como refugiados da China, soldados japoneses cuja honra fora perdida junto aos seus senhores em batalhas, andarilhos ou civis sem terras para arar e, finalmente, camponeses infelizes com as constantes guerras que assolavam o país e suas casas, buscavam refúgio em regiões mais isoladas e menos habitadas do país.
As regiões montanhosas de Iga e Koga, localizadas no centro sul de Honshu, foram o principal destino desse fluxo humano, permitindo o despertar e entrelaçar das diferentes culturas e conhecimentos dos imigrantes que ali se encontravam. Ao longo do tempo, esses refugiados passaram a se organizar quase como uma sociedade à parte no Japão, se afastando da desordem política e buscando viver em paz com a natureza e consigo mesmos. Nesses grupos a moral e a ética, diante da necessidade, se desenvolveram em um código de honra que se baseava na família, no grupo e na comunhão; únicos valores que detinham essas proto-sociedades.
Desenvolveu-se assim o Ninjutsu, um conhecimento voltado para a sobrevivência e para a paz e que, no princípio, não atuava participando em guerras. Esse era usado somente para a defesa da família, dos templos e da espiritualidade que habitava aquelas montanhas.
Porém a história não favoreceu o caminho escolhido. Com os anos a atividade marcial passou a ser fomentada. A consolidação da classe dos samurais no século XII, cujo código de honra baseava-se na importância da casta e na lealdade extrema ao senhor, adicionado aos atributos culturais e sociais desenvolvidos e relacionados a estes guerreiros de milícia, auxiliou na marginalização daqueles que viviam reclusos. Ao longo dos anos o Japão se aprofundava cada vez mais em sua desordem política e década após década o país perdia vínculo com as tradições imperiais, vendo seu domínio cair nas mãos dos senhores feudais. O caos e morte se espalhavam inexoravelmente por todo o território e a paz nas regiões de Iga e Koga era, então, ameaçada com maior freqüência, sendo os inimigos cada vez mais poderosos e bem estruturados.
Diante desse contexto infeliz, os ninjas tiveram a necessidade de serem menos passivos e de adotar uma postura pró-ativa em nome da sobrevivência. Durante o período auge das guerras civis que se estabeleceu entre os séculos XV e início do XVII, os Ninjas (e foi justamente aqui que o termo teria surgido) passaram a ser recrutados bem como atacados por senhores feudais que muitas vezes acreditavam na eliminação desses guerreiros de castas inferiores como uma forma de viabilizar seus objetivos. Os Ninjas buscavam nada mais do que uma vida pacífica, porém, para isso, precisavam se adaptar e sobreviver às crescentes ameaças. Suas habilidades, artifícios e pontos de combate desenvolveram-se e, apesar de seu pouco (ou nenhum) recurso bélico e econômico sua arte evoluiu de forma extremamente eficiente. Fazia uso inclusive de técnicas ou instrumentos pouco convencionais, ratificando o embate filosófico com a casta samuráica, que considerava qualquer postura não ortodoxa como desonrosa.
Uma das tácticas pouco ortodoxas utilizadas amplamente pelos Ninjas da época era o uso da psicologia e da manipulação da mente em campo. Uma sociedade extremamente mística e supersticiosa como a do Japão dava abertura para uma série de atividades nesses sentido, o que iniciou a fama sobrenatural do Ninja. Um homem bem preparado fisicamente que podia se deslocar 40 Km correndo em pouco mais de duas horas (nada de fantástico para um maratonista hoje em dia), ganhava facilmente a fama de ser capaz de voar. Lendas sobre Ninjas que se transformavam em pássaros ou em cães, ou de anciões que viviam nas florestas com monstros alados e dragões ganhavam cada vez mais credibilidade, mexendo com o imaginário da população e dando “poder” místico aos Ninjas. Tirando proveito das crenças de seu oponente o praticante de Ninjutsu podia surpreendê-lo através de truques, que na verdade, não passavam de jogos que o ludibriavam e favoreciam assim, o êxito na ação.
Infelizmente o misticismo inerente à sociedade japonesa, que ainda existe atualmente e que muito facilitou os Ninjas na antiguidade, hoje os atrapalha. Todas as lendas e mitos que o Ninja fomentou ao longo da história, aliados à ocidentalização da cultura japonesa, rica em mitologia, geraram uma gama de expressões em texto ou imagem que de nada servem para divulgar a real cultura e história por trás do Ninjutsu. O cinema em muito contribuiu para a total descaracterização desses guerreiros. A importância da técnica e da arte na história japonesa perdeu-se em algumas cenas fantásticas e irracionais provenientes de diretores incultos. O que não se evidencia no cinema é a interferência direta do Ninjutsu em diversos momentos conflituosos do contexto feudal. Ademais, o entrelaçar das filosofias que há séculos permeiam a arte, e formam seus estudantes, pouco se fez relevante. E pior, tudo isso abre espaço para muitos falsários que se dizem ninjas tradicionais e que vendem em seus cursos e treinos os segredos da levitação, da arte de voar ou da imortalidade, muitas vezes para jovens adolescentes desavisados e fãs de Mangas ou Animes como Naruto.
Nada de filmes, pouco de desenhos! O Ninjutsu, na verdade, contém em sua essência um caráter espiritual profundo e o estudo do movimento corporal e marcial, repetidos várias vezes. Isso possibilita ao aluno entender o que está além do combate físico. O treinamento é árduo e contínuo, pois perseverança na arte leva ao mesmo na vida, trazendo a tona o real conhecimento do indivíduo para que assim esse possa se entender, e entender o universo.
O verdadeiro Ninjutsu ensina a busca da coragem e da força para se adaptar e seguir sobrevivendo neste mundo conflituoso, superando os problemas, mesmo os da vida em geral, da forma mais rápida e eficiente cabível com determinação e autoconfiança, evitando o confronto ou a guerra sempre que possível e evoluindo assim enquanto artista marcial e ser humano, em paz.
André Renovato – Koga Kai Shidoshi
Robert Pascal Gerbauld - Koga Kai Sensei - 1º kyu
Introdução
Entre as mais antigas armas contendo lâminas no arsenal militar japonês está a Naginata, uma arma estilo alabarda muito utilizada pelas escolas samuraicas de artes marciais, com séculos de tradição. Ela tem sido descrita como uma arma que possui uma lâmina fincada na ponta de um bastão. Naginata jutsu pode ser traduzido por a arte da Naginata ou o estudo das técnicas de combate com a Naginata e ainda técnica da foice de guerra, entre outras traduções. Porém quando falamos de Naginata no ninjutsu, Naginata jutsu não se restringe apenas ao estudo das técnicas de combate com a Naginata, podendo-se incluir também o treinamento com uma outra alabarda conhecida como Bisento, ou seja, bisento jutsu.
História da Naginata
Inicialmente Naginata era escrita com caracteres chineses (kanjis) que literalmente traduziam “espada grande” e posteriormente esses kanjis se modificaram e passaram a ser traduzidos como “espada ceifadora”. Os primeiros relatos históricos associam a Naginata a monges guerreiros como os Sohei e os Yamabushi, que teriam sido os primeiros a utilizá-la a fim de assegurar a proteção dos santuários.
Existem diversas teorias sobre a origem da naginata, alguns acreditam que inicialmente tratava-se de um instrumento agrícola, outros que já teria sido criada com fins de combate, e ainda existem teorias que afirmam uma origem chinesa. Independente de qual seja a sua origem, no período Nara (710-94), os forjadores japoneses haviam construído lâminas para armas como a Naginata. Nessa época a cavalaria havia se tornado mais importante do que o grupo de frente desmontado. Guerreiros montados eram muito difíceis de serem derrotados pelo arco e flecha ou mesmo pela espada, a alabarda surgiu como uma excelente alternativa, pois era capaz de abater o cavaleiro ou ainda atingir o cavalo (cortando-lhe os membros) desmontando o guerreiro, que estaria então vulnerável. Tudo isso mantendo uma distância segura.
Com a sua vantagem no combate contra a cavalaria e até mesmo para os próprios cavaleiros que a portavam, a Naginata tornou-se arma popular no Japão antigo.
Importantes ícones da história japonesa eram conhecidos por carregarem consigo uma Naginata. O monge Saito Musashibo Benkei, foi talvez o mais famoso destes.
A Naginata e as Mulheres
No final do poder dos Minamoto a liderança foi contestada pelos Taira, lutando por este último clã, existiu uma mulher, talvez a mais corajosa de todo o Japão, chamada Itagaki. Famosa por sua grande habilidade com a Naginata, suas façanhas no campo de combate, com esta arma, se transformaram em lendas. Mulheres de todo o Japão a admiravam, e de certa forma a tomaram como um exemplo a ser seguido.
A forte relação entre mulheres e Naginatas começou nesta época, quando os estudos das mulheres nessa arte se intensificaram, principalmente esposas e filhas dos samurais. Estudar Naginata passou a ser parte obrigatória da educação feminina, não somente para autodefesa, onde era utilizada para proteger os lares e crianças na ausência dos homens, mas também como um método de treinamento moral. A Naginata era normalmente empregada diretamente contra pontos específicos do corpo do inimigo, e ainda possibilitava um combate a uma distância segura com um gasto mínimo de energia. Essas características eram importantíssimas para uso feminino, proporcionando maior segurança no combate contra oponentes de maior porte físico.
(Robert Gerbauld Koga Kai Sensei- 1º kyu e Amanda Newlands Koga Kai Senpay - 3ºKyu)
Naginata e o Ninja
A Naginata assim como a katana tornou-se uma arma importante para classe dos guerreiros samurai, inclusive substituindo em alguns casos a tão venerada espada, principalmente para os guereiros de hierarquia menor. Assim sendo, a importância desta arma não passou despercebida pelos clãs ninja, que a exemplo das técnicas com bastões (bojutsu) e espadas (kenjutsu), também personalizaram o uso da alabarda, desenvolvendo técnicas próprias.
Porém dificilmente o ninja desenvolveria uma devoção pela naginata como a dos samurais. Na visão dos ninjas, armas eram ferramentas que poderiam auxiliá-lo no cumprimento de seu objetivo, nada além disso.
Notam-se, assim como no kenjutsu ninja, posturas menos rígidas, adotadas tanto para criar a falsa impressão de incapacidade e fraqueza, como para se aproveitar de posturas típicas samuraicas.
Além da clara vantagem na distância de combate oferecida pela naginata e explorada pelos ninjas, cortes precisos em locais específicos do corpo eram exaustivamente pesquisados e treinados, possibilitando ao ninja superar as dificuldades impostas pelo seu porte físico inferior ou pelas complexas armaduras samuraicas.
Naginata na Atualidade
Com a chegada da arma de fogo em meados do século XVI modificou muito a forma das batalhas no Japão. No início da era Tokugawa (1603-1868), a Naginata sofreu um forte declínio. As batalhas se tornaram raras até se extinguirem por completo. A Naginata tornou-se uma arma usada na proteção doméstica, parte da educação das garotas japonesas e também uma peça decorativa enfeitando casas luxuosas, com fino acabamento e os mais diversos ornamentos, também podia ser levada como dote pelas noivas aristocráticas.
O treinamento com a Naginata assim como o em outras artes marciais, em um contexto geral, busca atingir objetivos que vão além do puro e simples treinamento físico. Refinamento espiritual e progresso mental também são atingidos através da prática.
Da mesma forma outras artes marciais, a Naginata chegou ao século XXI na forma esportiva. As competições de Naginata são muito populares no Japão. Nestas competições são usados equipamentos de proteção semelhante ao do Kendo, e a Naginata tem a lâmina feita de bambú, semelhante ao shinai.
Júlio Arruda – Koga Kai Senpai - 3º Kyu
Bisento Jutsu
A Bisento era uma outra alabarda, bem maior (podia chegar a 3 metros sendo 1 metro somente de lâmina) e mais pesada, característica que limitava o seu uso a apenas os guerreiros mais fortes e tornava suas técnicas algo mais lentas. Era conhecida como alabarda de campo excelente para aniquilar oponentes, mesmo portando armadura, com único golpe. Era muito utilizada por cavaleiros bem como contra eles, com seu amplo raio de ação, lançava-se um ataque ao animal ou diretamente ao cavaleiro, desmontando-o.
Acredita-se que a bisento foi introduzida no Japão por volta do 5º século d.C. por um guerreiro chinês chamado Tetsui Jo, e surgira de uma famosa alabarda chinesa, o Kwan Tao.
Supostamente a bisento teria originado uma outra alabarda, a Naginata. No entanto, enquanto a Naginata ganhou uma fama que transcendeu os tempos, a Bisento permaneceu nas sombras, com uso quase exclusivo dos ninjas, e assim como tudo que os envolve, sua história permanece incerta.









